
Entre os séculos XV e XVIII muitos portugueses partiram rumo ao Brasil. Muitos deles fugiam da perseguição provocada pela inquisição na Europa.
Os reinos de Espanha e Portugal eram cristãos e determinaram a expulsão de todos os judeus sefarditas que ali viviam caso não se convertessem ao cristianismo. Os judeus convertidos forçosamente foram denominados de cristãos-novos.
Vale dizer que os judeus ou cristãos-novos denunciados por heresias contra a igreja tinham seus bens e pertences confiscados, levando muitos à situação de extrema miséria. Quando sentenciados e condenados, deviam fazer uso por tanto tempo fosse determinado dos hábitos penitenciais – sambenitos – que os identificava e ajudava a constituir o estigma social ainda mais duradouro, negando-se tudo, até esmolas.
A trajetória de Branca Dias, nascida em Viana do Castelo, provavelmente em 1515, transcende a história. Há filmes, livros, documentários e novelas contando a vida de uma mulher denunciada pela mãe e pela filha ao serem presas durante a inquisição em Lisboa. Há também lendas que ainda hoje resistem no imaginário popular do povo pernambucano.
Foi sentenciada pelo Tribunal do Santo Ofício à abjuração pública, dois anos de cárcere e uso de hábito penitencial. Não se sabe a maneira, mas fato é que conseguiu deixar Portugal e fugir para o Brasil ao encontro de seu marido Diogo Fernandes que teria ido anos antes e recebido em 1542 uma sesmaria do Capitão Donatário de Pernambuco Duarte Coelho. No local instituiu o Engenho Camaragibe.
Foi uma das primeiras senhoras de engenho, conviveu com figuras importantes do período colonial, sobreviveu a todos os temores e terrores de terra tão vasta e desconhecida e foi pioneira ao ensinar. Depois de ter as terras tomadas (ou retomadas) pelos indígenas, morou em Olinda, cidade na qual residiu até sua morte ocorrida em 1588 ou 1589. Fundou em segredo uma sinagoga (criptosinagoga) até hoje existente no local de sua residência e denunciada por suas alunas por prática de judaísmo.
No final do século XVI, durante a primeira visita do Tribunal do Santo Ofício ao Brasil, seus filhos e netos foram presos sob a acusação de reconversão ao judaísmo. Enviados à Lisboa, foram punidos em autos-de-fé. Nesta altura, Branca Dias já não era viva, então seus restos mortais foram transladados para Portugal e queimados em autos-de-fé em punição póstuma.
Por sua coragem e por seu pioneirismo em tantas frentes, é considerada uma das heroínas de Pernambuco no Brasil Colonial. Branca Dias e Diogo Fernandes deixaram vasta descendência por diversos estados, dentre eles: Pernambuco, Ceará e Paraíba.
Desde 2015 há uma lei portuguesa que busca reparar a história e permite o retorno daqueles que comprovem serem descendentes de judeus sefarditas à nacionalidade portuguesa. Através de um detalhado estudo genealógico e assessoria jurídica eficiente pode ser adquirida a nacionalidade.


